Professores de Português destacados em escolas comunitárias
nos Estados Unidos protestam contra o fim das requisições
A notícia da agência LUSA
EUA: Fim do destacamento de professores pode ditar
fecho de mais de 60 escolas comunitárias
Nova Iorque,25 Set (LUSA) - Professores de
português que leccionam em escolas comunitárias nos
Estados Unidos afirmam-se em “estado de choque” com a
negação do pedido de mobilidade por parte da
Secretaria de Estado da Educação (SEE).
Estes professores, muitos deles residentes no país
há alguns anos, mas todos com vínculo a escolas em
Portugal, têm visto o seu pedido de mobilidade ser
deferido anualmente para poderem continuar a dar aulas
nestas escolas.
O indeferimento do pedido de mobilidade significa
o regresso imediato a Portugal e às suas escolas, que
neste memento lhes estão a marcar faltas
injustificadas e se preparam para lhes instaurar
processos disciplinares, disse um docente à Lusa, que
preferiu não ser identificado.
“Isto é a machadada final no ensino da língua e
cultura portuguesas nos Estados Unidos”, disse à Lusa
Judite Fernandes, directora de uma escola comunitária
em Nova Iorque.
“Vivemos há anos e anos sem qualquer apoio de
Portugal, fomos nós que criámos estas escolas, cujos
cursos o Ministério da Educação reconheceu, fomos nós
que contratámos estes professores com habilitação
própria para o ensino da língua portuguesa, somos nós
que lhes pagamos, e agora vamos ficar sem eles”, diz.
Já para um dos professores destacados no Estado de
Connecticut, que pediu para não ser identificado, a
decisão é “inacreditável e impensável” sobretudo
quando foi comunicada aos conselhos executivos das
escolas em Portugal “já com o ano lectivo a decorrer e
com os professores a leccionarem nos Estados Unidos”.
“Os pedidos de mobilidade são entregues em
Portugal em fins de Abril. Como é que o Ministério
esperou até 25 de Setembro para comunicar às escolas o
indeferimento do pedido?”, perguntou.
“O que é que nós vamos fazer agora? Regressar a
Portugal de um dia para o outro para não nos marcarem
faltas injustificadas? E as nossas vidas aqui, os
nossos filhos neste país? Como é possível alguém
pensar que se pode abandonar tudo de um dia para o
outro?”, questionou ainda o mesmo professor.
A decisão de indeferir os pedidos de mobilidade a
estes docentes é vista como “ainda mais estranha” por
ocorrer quando acabam de ser nomeados em Diário da
República novos coordenadores para o ensino do
Português nos EUA, preenchendo assim o lugar deixado
vago há mais de dois anos quando Graça Castanha, então
conselheira para a Educação em Washington, foi
exonerada.
Nos últimos tempos, as autoridades portuguesas têm
insistido na ideia do ensino do português integrado
nos currículos das escolas americanas, mas salvo
pequenas excepções nos estados da Califórnia, Rhode
Island e Massachusetts, onde poucas, escolas
secundárias oferecem o Português, a maioria dos alunos
luso-descendentes continua a frequentar as escolas
comunitárias para aprender a língua dos pais.
“O ensino integrado justifica-se em cidades onde
reside uma grande comunidade portuguesa, que são
excepções”, disse à Lusa Manuel Carrelo, conselheiro
das Comunidades Portuguesas nos Estados Unidos.
“Na maioria dos estados, a comunidade está
dispersa em pequenas cidades e os alunos frequentam
escolas americanas diferentes, reunindo-se todas numa
escola comunitária para aprenderem português num
ambiente cultural português”, acrescentou.
Nos Estados Unidos, ao contraário de Portugal, as
escolas não dependem de um Ministério central, mas sim
de um conselho local, eleito cidade a cidade, que
estabelece calendários escolares e currículos como
entender.
Daí que qualquer negociação para estabelecimento
de protocolos com entidades estrangeiras, por exemplo,
tenha que ser negociada caso a caso.
“É uma prova de que nem na Secretaria de Estado
das Comunidades nem no Ministério da Educação se
conhece a realidade deste ensino nos Estados Unidos,
apesar de tantos estudos e tantas deslocações de
secretários de Estado”, diz ainda aquele conselheiro
afirmando que esta decisão representa o fim das
escolas comunitárias onde os luso-descendentes
aprendiam a língua portuguesa.
Para Ana Albergaria, professora requisitada, a
decisão é uma “absoluta falta de respeito para com
professores que dão parte das suas vidas para manterem
viva a língua portuguesa nas comunidades e uma
descriminação em relação à Europa”.
“O objectivo do Ministério é pura e simplesmente
eliminar-nos das listas de professores em Portugal,
pois eles sabem que a maioria de nós não pode
regressar de imediato e assim instaura-nos processos
disciplinares para nos expulsar”, acrescenta.
Raquel Martins, professora de Português e Inglês
destacada em Long Branch, estado de Nova Jérsia, disse
à Lusa não ter acreditado quando soube da decisão que
afecta 70 crianças a quem ensina português.
“É graças a mim e aos meus colegas que estas
crianças falam português, pois nem eu nem esta escola
tivemos algum dia apoio de Portugal e agora fazem-nos
isto”, lamenta a professora.
No ano lectivo de 2004-2005, o último para o qual
existem dados oficias, estavam matriculados nas
escolas comunitárias perto de 4.000 alunos, que agora
arriscam ver os seus professores partirem e ficarem
sem aulas de língua portuguesa.
LUSA